Bom dia...
Musica para acompanhar o post: https://youtu.be/Y1ilNWRFFU0
De volta ao Blog e aos posts, parece uma viagem no tempo, em que apesar de ainda ser tecnologia digital e relativamente moderna, a sensação é a de pertencer a um passado já muito distante, que muitos de nós já se esqueceram, e que eu próprio já sinto alguma necessidade de "adaptação", quer seja pela sensação de "teclar" novamente, ou por algo bem mais simples e ainda assim tão irritante, como o autocorrector ortográfico, que já tanto interfere com a nossa vida...
Peço-vos então alguma paciência com eventuais "calinadas" e falhas de formatação, porque se a tecnologia "Blog" era algo complicada antes, hoje está rigorosamente na mesma...
Com o mero intuito de ajudar quem quer saber mais acerca do seu Mini, espero apenas que os post ajudem a esclarecer algumas duvidas, assim como a desmistificar algumas questões, que como profissional do sector, sinto existirem cada vez mais...
Sempre em modo descontraído e casual, introduzido por um link musical para determinar o tom, espero desde já que gostem dos artigos, que apesar de serem escritos com o máximo rigor possivel, não deixam de ser uma interpretação pessoal, que pode ser alvo de correcções ou actualizações. Estejam por isso á vontade para deixar a vossa opinião/ajuda/critica nos comentários... Obrigado desde já pelo vosso regresso ao blog.
Bom, vamos então á parte que nos trouxe até aqui...
Hoje vou introduzir o tópico dos rolamentos das rodas, neste caso especifico, os dianteiros, na versão "travão de disco", mas que em muito se assemelha aos outros todos. Os princípios básicos são os mesmos, mas assim que a oportunidade surgir, falarei também sobre os rolamentos dos cubos dianteiros de tambor e das rodas traseiras...
Apesar de ser um carro bastante leve, o Mini sofre de uma forma um pouco mais agravada de desgaste de rolamentos, especialmente por ter rodas consideravelmente mais pequenas que outros automóveis, que as tornam muito mais sensíveis aos obstáculos das estradas, mas que também as obrigam a rodar muito mais (dar mais voltas) para conseguirem circular ás mesmas velocidades que os outros automóveis. A suspensão rija e pouco tolerante, também contribui generosamente para o desgaste dos rolamentos, uma vez que obriga o conjunto jante/pneu a lidar com a maior parte dos eventuais impactos nos buracos e demais obstáculos...
A melhor maneira de identificar rolamentos em mau estado é "escutar" o rolar da roda, quer seja em condução ou no elevador. Por norma, os rolamentos começam por "cantar" ou "zoar" quando estão a gripar, evoluindo para um barulho tipo "escape de mota de alta cilindrada" quando já passaram a fase da duvida...
Quando tiverem a certeza de que os rolamentos já fazem barulho, não hesitem! Troquem-nos antes que haja azar...
A vasta maioria dos casos até corre bem, mas entre rodas quase a cair, travões destruídos ( quer por contaminação de massa lubrificante, que por desgaste irregular devido a folgas), rodas bloqueadas, e até quase a arder por excesso de fricção, já apareceu aqui de tudo um pouco...
A massa a escorrer pela porca da transmissão e o freio todo torcido devido ao esforço deram logo a dica, mas já nem havia grande duvida, porque assim que fiz os primeiros metros de estrada com ele, o barulho que encheu o habitáculo denunciou logo o problema. Por norma, ao virar para um lado ou para o outro, conseguimos saber qual o rolamento estragado, porque ao aplicar esforço numa das rodas (ao curvar), o barulho aumenta ou diminui consoante o lado que está estragado. Por exemplo, se ao virar para a esquerda, o barulho aumenta, será quase de certeza o rolamento da direita, porque o peso extra do carro nessa roda fez aumentar o barulho, e vice versa...
No entanto, tanto por segurança como por oportunidade, o ideal será trocar logo ambos os lados, tal como se trocam os dois sapatos de uma vez. Se um rolamento está mau, o outro não tardará muito a ficar na mesma, e já que estamos a mexer, mais vale deixar já tudo feito, para não andar sempre a caminho do elevador...
Por estarem montados dentro da manga de eixo/cubo de roda, temos que desmontar o conjunto todo...
...que é tão intuitivo como parece. Por uma questão de facilidade, eu começo sempre por desligar a direcção, de preferência com um saca próprio. Umas pancadas com o martelo também podem ser solução, mas alem de deixarem marcas, aumentam o risco de prejuízo em caso de falharem o alvo...
Já com a direcção desligada...
...é mais fácil chegar ao interior das pinças de travão e desapertar os dois parafusos de fixação, com a chave 9/16 (polegadas), ou com a 14 (milimetros)... No caso dos travões de tambor, será necessário desligar os tubos de travão (sempre no carro e nunca nos bombitos), que mostrarei como fazer assim que possivel...
...para conseguirmos tirar o disco e falange de transmissão ao desapertar a porca central do cubo. A chave será uma 1 5/16 polegadas (sensivelmente 33,33 milímetros), ou uma chave 34mm, de preferência de seis lados apenas (sextavada), em vez da versão de 12 lados (Dozavada ou "estriada", como é conhecida na gíria da mecânica) ...
Disco fora, e logo á primeira vista, temos algo errado. O retentor que deveria tapar o rolamento não está no sitio...
...e a massa que deveria estar a vedar também não...
Avançamos para o cubo, com o mesmo tipo de saca rótulas...
...e confirma-se. A massa saiu para fora do cubo ( a foto é terrivel, mas isto é a parte interior do cubo/manga de eixo, cheia de massa consistente onde não era suposto...), contaminou os discos de travão, mas pior do que isso, deixou os rolamentos sem lubrificação, que acabaram por gripar. Vamos desmontar os rolamentos, começando por extrair os retentores com uma chave de fenda (podem ser danificados ao desmontar, porque serão substituídos por novos...), de seguida retiramos as partes interiores dos rolamentos, que deverão sair sem grande esforço...
...deixando os as caixas exteriores dos rolamentos á vista. Passem um pano ou um papel e limpem a massa o melhor que puderem, para ser mais fácil de ver o que estão a fazer. A ideia agora é tirar aqueles "aros" (caixas exteriores dos rolamentos) de dentro da manga de eixo...
...e apesar disto poder ser feito numa prensa, eu ainda prefiro o método "tradicional", em que uso a saliência do cubo para introduzir uma chave de fenda forte ou um punção, e com pancadas firmes, de um lado e do outro alternadamente, empurro as caixas para fora, até saltarem de vez. Não tentem tirar as caixas logo de uma vez, ou correm o risco de empenar a caixa dentro da manga de eixo, que de certeza que ficará presa e muito mais dificl de extrair... Quando bem feito, sai com facilidade, desde que usem um punção ou chave de fendas resistente, com um martelo devidamente pesado para o efeito. É mais fácil do que parece.
Não vou ilustrar a montagem, porque além de ser apenas a operação inversa á desmontagem, há um aspecto muito mais importante que quero mostrar, dentro do tempo limitado que tenho para escrever os posts..., a qualidade e valor do material que se consegue comprar hoje em dia!
Substituir rolamentos de roda não é propriamente uma tarefa "normal" ou das mais baratas, mas de nada serve poupar no mais essencial, pois quase de certeza terão problemas.
Apesar de cada vez mais acessível, a verdade é que algum material para os nossos Minis é cada vez mais fabricado com padrões de qualidade muito duvidosos, que resultam em prejuízo, perca de tempo ou mesmo falhas mecânicas graves...
O excesso de alternativas disponíveis, nem sempre é boa noticia, porque num mercado tão competitivo como é o das peças auto, muitas vezes o custo de produção/lucro sobrepõe-se á qualidade, e neste caso, infelizmente, os rolamentos são bons exemplos disso mesmo...
...como vamos ver aqui. Nesta foto estão apenas 3 das muitas opções de fabricantes actuais de rolamentos disponiveis para os Mini, mas são suficientes para o que quero mostrar... De baixo para cima temos: Os originais, fabricados pela "Timken", que serão os mais caros de todos. No meio os da "Moog", de preço mais acessível, e embora de construção mais "económica", ainda com qualidade suficiente, e até muito razoável, para qualquer tipo de Mini com utilização constante...
E por fim, em cima, a versão "super económica" dos rolamentos dianteiros Mini, para a versão travão de disco, de marca "First line", que como descrito na própria caixa "The all makes specialist", ou seja, fazem de tudo para todos...
Vamos lá então ver "quem é quem"...
Bom..., começando por estes... Não!!! Simplesmente não!!! Não se iludam com aquele site terminado em ".co.uk", como se fosse sinónimo de fabrico inglês, porque não é. Isto é material "Made in China", de fabrico muito duvidoso, quer a nivel do tipo de materiais usados, quer de acabamentos. No entanto, o pior mesmo é a falta de rigor no fabrico das peças, porque apesar de se anunciarem "especialistas em tudo", acho que não são é perfeitos em nada. Estes rolamentos das fotos são novinhos em folha, e apesar de estarem sujos de massa consistente, não chegaram a andar sequer..., literalmente.
De fabrico mais tosco e sem marcas ou referências nenhumas nas peças em si, pareciam suficientemente capazes de montar num Mini de uso ocasional, não desportivo ou demasiado exigente, mas não foi o caso...
Ao copiarem os rolamentos, os fabricantes que produzem para esta marca, não respeitaram as medidas originais, e ao apertar as transmissões para travar/frear a tal porca que desapertamos antes, as rodas ficaram totalmente boqueadas, ao ponto de só rodarem com um esforço considerável. Numa situação destas, o que aconteceria era o aquecimento excessivo dos rolamentos, que poderia resultar em falha grave dos mesmos, resultando em danos materiais no carro ou coisa pior... De várias situações que já tive com material de qualidade/fabrico duvidoso, esta terá sido das mais flagrantes, pois nem para montar servem... Isto é mero desperdício de tempo e dinheiro. Não usem isto!!!
A boa noticia é que existem boas alternativas,,,
...como por exemplo, estes fabricados pela "MOOG", do grupo Federal Mogul.
O simples facto de serem fabricados com sistema de roletes cónicos e casquilho central, diz-nos logo que não o factor determinante no fabrico não foi o custo de produção. Apesar de parecem algo mal acabados nos detalhes, a qualidade está lá, assim como a correcta fabricação das peças. Montam bem, funcionam bem, e duram bastante. Desde utilização normal a condução mais desportiva, tenho tido sucesso com este fabricante, sem problemas nenhuns a apontar. O desgaste varia muito da utilização que sofrerem, mas no geral, são muito capazes e duradouros.
Por fim...
...os "Timken".
Vendidos pelo representante Mini oficial desde sempre, estes rolamentos são simplesmente os melhores possiveis. Que não haja enganos. Se querem bom, querem estes.
Com acabamentos perfeitos, estes rolamentos vão ao ponto de cada conjunto de roletes cónicos ser aplicado numa caixa exterior especifica, ou seja, a parte central do rolamento foi "casada" com a parte exterior de uma forma tão precisa e rigorosa, que passam a ser um conjunto próprio, que não se deve alterar. Aquela fita vermelha serve para isso mesmo, garantir que não acontecem trocas entre peças semelhantes, em que cada uma delas é "assinada" manualmente pela pessoa que os verificou e preparou na fábrica. São caros, mas são excelentes. O ruido de estrada desaparece de vez, e desde que bem lubrificados, duram uma vida. Tenho conjuntos destes montados há mais de 20 anos, ainda tão bons como no primeiro dia.
Claro que cada intervenção nos nosso Minis tem que ser ponderada e bem calculada em termos de custo/resultado, mas neste caso concreto, que envolve a vossa segurança, conforto e a durabilidade do vosso investimento, nem todas as opções são viáveis... Infelizmente, esta situação não se resume só a a rolamentos de roda, mas a um numero cada vez maior de peças, para Minis e não só, que estão cada vez mais bem disfarçadas de produto de qualidade, quando na realidade não o são. Tenham atenção e acreditem que mais vale fazer uma só vez bem feito, do que andar sempre a "remendar"...
Atenção que eu não vendo peças, nem tão pouco represento algum grupo que as venda...
Simplesmente lido frequentemente com estas situações, e se por um lado gosto de explicar estes procedimentos com o intuito de clarificar ou ensinar quem quer manter o seu Mini na estrada, ao mesmo tempo não gosto de assistir a este tipo de situações , que em nada beneficiam os carros ou os restauros, que sofrem directamente com este fenómeno...
Deste modo me despeço, com a esperança de que a parte técnica do post vos possa ser util de alguma forma, assim como a parte informativa. O objectivo principal deste Blog será sempre a questão técnica dos Minis e clássicos em geral, mas incluirei este tipo de informações, sempre que o achar relevante...
Boas curvas, de preferência com rolamentos que as aguentem...
É bom estar de volta...
Rui Tiago
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